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Nem todo cachorro pode ser adestrado para ser cão de guarda

Nem todo cachorro pode ser adestrado para ser cão de guarda!

Especialista orienta sobre a importância do adestramento para cães de guarda e sobre os cuidados que os donos devem tomar.

O rottweiller Hulk faz jus ao nome, ele é grande como o super herói dos quadrinhos, mas ao contrário do personagem, que sempre está bravo, ele é um cão dócil, como conta seu dono Flávio Pires de Souza. Há algum tempo, Hulk iniciou o treinamento para se tornar um cão de guarda, e após cinco meses, o cachorro brincalhão se tornou o vigia da casa onde mora, no Vale do Aço.

“Por ser um rottweiler eu senti a necessidade de ter total autonomia sobre ele e também porque seria um desperdício não fazer tal adestramento com o porte do meu cão. Mas vale ressaltar que no início pensei que ele não daria para guarda, pois ele era muito dócil, mesmo tendo um porte de assustar. A previsão era de que finalizasse o adestramento com seis a oito meses de treinamento, mas o Hulk se saiu muito bem e finalizou o treino com cinco meses”, conta Flávio.

Rottweiler Hulk treinou por cinco meses para se tornar um cão de guarda — Foto: Flávio Pires de Souza/Arquivo Pessoal

De acordo com o cinotécnico e comportamentalista Thales Reis, nem todo cachorro pode ser adestrado para ser cão de guarda, independente do porte e raça, pois além das características físicas, certos traços psicológicos são necessárias para o animal exercer a função. Dessa forma, antes de receber o treinamento, o cachorro tem que passar por uma espécie de exame psicológico para atestar sua aptidão ao cargo.

“Antes de mais nada, a gente faz uma avaliação no animal. Nessa avaliação a gente busca saber se esse cão tem o temperamento para exercer essa função, ou seja, se ele é apto para a função de cão de guarda. Lembrando que não são todos os cães, independente da raça, mesmo a raça sendo uma raça para guarda, não são todos que vão ter esse temperamento, essa personalidade.

O cão de guarda tem que ter certos impulsos, impulso de caça, de defesa ou agressividade. Esses impulsos são usados até mesmo em sua natureza, o cão tem que nascer com isso. Isso aí estabelece até mesmo dentro da matilha uma ordem social entre os cães, quem vai ser o dominante, quem vai ser o responsável pela caça, entre outros, então a gente pega isso e trás para o território, para o ambiente onde o cão vai exercer essa função de guarda”, explica.

Apesar disso, Thales afirma que é mais comum os donos de determinadas raças de grande porte procurarem o adestramento para torná-los cães de guarda. “Hoje as raças mais usadas são pastor alemão, pastor belga de malinois, rottweiler e o dobermann, sendo que na nossa região os mais usados são o pastor alemão e o pastor belga de malinois”, conta.

“Ele amadureceu demais. Ele era muito crianção. Hoje comigo e minha esposa ele é brincalhão, mas quando colocamos a coleira nele é como se ele transformasse, como se colocasse o uniforme de trabalho. No terreiro ele parece ser um vigia. Ele fica bem agressivo perto de estranhos. Para receber visita temos de prendê-lo. Agora na rua em um passeio ele fica com olhar atento, por isso quando passeio com ele e me deparo com determinada situação já puxo o enforcador e dou o comando “não”, evitando que ele tente atacar, e ele obedece direitinho. Mas ele ainda gosta de brincar, fica sério só quando aparenta ter alguma situação diferente, tipo um estranho ou algum barulho anormal próximo de casa”, afirma.

O treinamento

O adestramento de cães de guarda dura em média de seis a oito meses. No treinamento é necessário no minímo dois profissionais, um que será responsável pelo adestramento do cachorro e um figurante, que será a pessoa que interpretará o papel de intruso. “O figurante é a pessoa que está ali para levantar o impulso do cão, que vai tomar as mordidas, digamos assim. A pessoa que está ali com aquele roupão para fazer o cão morder, ensinar ele a como morder, isso é um papel de responsabilidade do figurante, que é de suma importância nesse treinamento, sem o figurante não tem como treinar um cão de guarda. Então para treinar um cão de guarda são duas pessoas, um condutor, o adestrador, e o figurante”, explica Thales.

O cinotécnico afirma que é importante o animal passar pelo treinamento para exercer a função e que apenas deixar um cachorro de grande porte solto no terreno não significa que aquele cão esteja, de fato, de guarda do local. “Isso é erradíssimo. Primeiro porque é mito essa questão de guarda natural, o cão latir e rosnar não é guarda, até mesmo os cães com medo fazem isso, os cães inseguros fazem isso, demonstram uma certa agressividade por meio de evitar algum tipo de conflito, então eles demonstram esse tipo de comportamento, e os donos acabam achando que o cão está exercendo um trabalho de guarda e ele não está”, diz Thales.

Thales explica ainda que os cães são treinados para atacar apenas estranhos e obedecer fielmente seu dono, o que não ocorre com um cachorro que não foi adestrado. “O cão de guarda nada mais é do que um cão equilibrado. Ele é equilibrado para ser um cão sociável com quem o dono estabelece, com a família ou com algum indivíduo que o dono estabeleça. E é um cão anti-social com os estranhos para o território, ou seja, chegou alguém que não apresenta uma certa confiança, que não é do conhecimento desse cão, ele tem que apresentar esse impulso de agressividade, de defesa”, afirma.

Ele alerta que em muitos casos as pessoas deixam os animais isolados e presos em correntes, na tentativa de deixá-los bravos e hostis.

“Tem um mito por aí que deixar o cão preso e isolado ele vai ficar bravo, e não vai. Esse cão vai ficar estressado de tanto ficar preso, daquela corrente batendo no pescoço constantemente. E com isso o cão vai ter que gastar a energia, para aliviar o estresse, e assim muitas vezes acontece a agressão ao próprio dono. Aí vem aquele rótulo, “ahh, porque esse cão era de guarda e atacou o dono”, não, esse cão não era de guarda, se fosse de guarda não estaria na corrente, esse cão não foi trabalhado para exercer essa função. Então esse cão que fica preso e isolado fica estressado e acaba avançando em qualquer pessoa, se torna um cão desequilibrado emocionalmente, e quando a gente fala cão de guarda, esse cão tem que ter equilíbrio, no comportamento, na personalidade e na agressividade, quando mostrar ou não”, explica Thales.

Segundo o especialista, as pessoas devem entender que ter um cão de guarda é uma coisa séria, e que o treinamento dos cães preza também pela obediência e disciplina do cachorro, além da questão do ataque e da defesa.

“É um treinamento demorado, tem que ser muito técnico, detalhado, porque começa desde a mordida do animal. O cão tem que saber morder com os dentes certos, de forma perfeita, onde morder, como morder, o que fazer após a mordida. O cão tem que começar a receber pressão, porque se um bandido entrar, esse cão vai agir e, consequentemente, o bandido vai querer bater nele, então esse cão tem que estar preparado fisicamente e psicologicamente para receber essa pressão. Então esse treinamento tem que envolver uma boa obediência e disciplina, o treinamento não é por si só a mordida, ela é uma consequência, ele começa com a obediência e disciplina e posteriormente vai entrar no trabalho de guarda e proteção”, explica Thales.

Cuidados

Ainda de acordo com ele, o dono tem que ter os mesmos cuidados de higiene e alimentação que tem com um cão que não é de guarda. E que os donos podem brincar, dar carinho e passear na rua normalmente. “No geral, o passeio é do mesmo jeito, os cuidados sanitários são os mesmos, o carinho que o dono vai dar é o mesmo, não tem restrição para cão de guarda receber carinho, até porque não vai diferenciar ele de outro cão por causa de disso. O que deve ter cuidado mesmo é em relação a pessoas estranhas, ele não deve receber visita solto, o dono tem que estar com ele pelo menos na guia, então nesse caso ele vai ser diferente de um pet”, afirma.

Cães são treinados para obedecer o dono e atacar se ele der o comando — Foto: Thales Reis/Arquivo Pessoal

Ele explica ainda que apesar de ser um cão normal com a família e pessoas próximas, é importante ter cuidado em relação a terceiros por causa do treinamento. “Todo cão aprende por meio de associação, ele vai associar alguns comportamentos e vai começar a fixar aquele comportamento e levar para o resto da vida. Se esse cão é de guarda e todo mundo estranho começa a ter contato com ele, ele vai entender que não precisa mais ter esse cuidado com pessoas estranhas, que não precisa mais ser agressivo, ou seja, ele vai começar a ficar manso, vai socializar com essas pessoas e vai perder essa função de cão de guarda, infelizmente”, diz Thales.

Em relação às visitas, Thales explica que algumas medidas devem ser tomadas para garantir a total segurança das pessoas. “A visita, o carteiro, quem for visitar a casa ou prestar algum serviço nela, deve ser recebido com o cachorro preso na guia ou então com ele dentro de um canil. Colocou no canil não tem problema, ele vai latir, mas vai estar seguro e a visita vai estar segura. Por outro lado, se o dono da casa entende que tem alguém chamando que pode representar algum risco, uma pessoa que o dono não conheça ou que aparente estar mal intencionada, então o dono pega esse cão e recebe a pessoa com ele na guia, porque se ela vir a apresentar algum mau comportamento com o dono, o cão está ali pronto para agir”, explica o cinotécnico.

Por Thatiane Moura, G1 Vales de Minas

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